Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A importância da comunidade com "Meet me in St. Louis"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.13

Este é um musical de Minelli. Uma família tradicional e a simplicidade da sua existência. Há afecto, alegria e sobretudo uma cultura que eu me atreveria a caracterizar de democrática. A disciplina não se impõe sem o respeito por cada um. É assim que o pai irá reconsiderar a sua decisão de mudarem para Nova Iorque, a melhor prenda de Natal que poderia dar à família.

 

Há duas cenas magníficas e cronometrei-as, a primeira inicia-se já o filme vai a 1h:06m até 1h:16m (exactamente 10 minutos): a notícia da mudança para Nova Iorque, com a reacção de tristeza da família, em que todos perdem o apetite e deixam a fatia de bolo na mesa. O pai sente-se magoado com esta reacção e senta-se num cadeirão, a mulher vem animá-lo e traz-lhe o seu prato com a fatia de bolo. Senta-se então ao piano e toca uma canção que o marido reconhece emocionado. Levanta-se e canta. Começamos a ver os filhos e o avô a descer as escadas e, um a um, a pegarem no seu prato com a fatia de bolo e a sentar-se, a empregada incluída, ainda um pouco desconsolados. Minelli consegue dar-nos a atmosfera certa das emoções e sentimentos de cada um apenas com gestos simples do dia-a-dia de uma família.

 

 

 

 

Outra cena magnífica vem um pouco depois, a partir da 1h:34 até à 1h:45, poucos minutos antes do fim do filme, e envolve toda a sequência que se inicia com a canção de Natal à janela, a crise de revolta e desespero da filha mais nova que destrói os bonecos de neve. O pai espreita à janela, diz à outra filha que está tudo bem, desce as escadas onde já vemos a parede vazia dos quadros, senta-se de novo num cadeirão e risca um fósforo para fumar. Tão absorto está que queima os dedos. Percebemos pelo seu rosto que tomou uma decisão. Levanta-se e chama a família. Vemo-los a descer as escadas de novo, um a um, desta vez quase a correr, para saber o que se passa. Ao anunciar-lhes a decisão de ficar em St. Louis, há uma ironia nas suas palavras: vamos ficar aqui até apodrecermos. E começa a evidenciar as qualidades da cidade, sendo uma delas a organização da Feira Internacional. Todos se manifestam animados e felizes, entretanto lembram-se que já é véspera de Natal e abraçam-se. Vemos a mãe voltar ligeiramente as costas, comovida, o marido olha-a e aproxima-se, e coloca a mão sobre a sua.

 

Minelli é perfeito na atmosfera dos seus musicais. A mensagem está nos pequenos pormenores. A simplicidade da vida familiar, a continuidade das gerações, o futuro sempre presente.

As famílias saudáveis são as que mantêm essa abertura para a passagem do tempo, a mudança, um novo equilíbrio. Embora esta família acabe por ficar na sua cidade e na comunidade que conhece, está virada para o futuro.

Não é o medo da mudança que os mantém ali, é a noção de que em Nova Iorque se sentirão desenraízados, isolados (e os nossos amigos?), a sua qualidade de vida será afectada (pessoas como nós não poderiam manter uma casa com jardim em Nova Iorque, teríamos de viver num andar).

 

Hoje quantas famílias desejariam ficar na sua cidade, na sua comunidade, e mesmo no seu país, se tivessem essa possibilidade? É certo que hoje já se comunica melhor à distância, no tempo do filme só há o telefone de casa, mas nada substitui o convívio afectivo e social.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:53

Este Natal, como já repararam, virei-me para os musicais. Sobretudo os que fazem parte da minha infância e adolescência. Hoje acredito que só as crianças até aos 5, 6 anos achem piada a estas histórias, afinal não têm personagens assustadoras nem se destroem objectos de forma espectacular. Mas é um engano pensar que O Feiticeiro de Oz, por exemplo, não é assustador e violento, de uma forma muito subtil. Foi assim, pelo menos, que o senti quando o vi a preto e branco na televisão. E quando o revi a cores, já adulta, a sensação desconfortável permaneceu.

 

Eis um musical cheio de mensagens, na velha tradição dos contos infantis: o bem e o mal, ultrapassar o medo, enfrentar os desafios. Há uma fada madrinha e uma bruxa má, um feiticeiro que todos temem, e até três personagens que representam, cada uma delas, uma qualidade, embora cada uma delas ande à procura de uma outra qualidade: cérebro, coração e coragem. A rapariguinha revela-se muito corajosa, como provavelmente todas as crianças desejariam ser, e vai enfrentando com criatividade e determinação, os desafios desse caminho.

 

Interessante descobrir-se no final do caminho que, afinal, o feiticeiro que aterroriza a imaginação dos habitantes de Oz é apenas uma ilusão. Não deixa de ser significativo que as grandes ilusões sejam mantidas assim, pelo espectáculo da maquinaria do poder, como um grande circo, um grande palco, uma grande arena, muito barulho e ruído, tudo repetido maquinalmente. O Feiticciro de Oz dá o título ao musical, não se esqueçam.

 

 

 

 

 

E afinal as qualidades que os companheiros de aventuras da rapariguinha pedem ao Feiticeiro de Oz não lhes podem ser dadas por ninguém, têm de ser descobertas pelos próprios. Neste caso, cada um deles tem uma qualidade e todos juntos reúnem as qualidades necessárias, o poder está portanto em si próprios, não lhes vem do exterior.

 

A mensagem que aqui deixo hoje é: podemos escolher entre deixarmo-nos embalar pela ilusão, a falsa esperança, os sorrisos de plástico da publicidade, as vozes maviosas de circunstância, ou procurarmos a realidade por trás desses painéis, das luzes e do ruído, a vida real, as pessoas reais, as emoções e os sentimentos genuínos. Escolher entre negar o medo, ou encará-lo de frente. Escolher entre admirar os falsos ídolos ou ter a coragem de aceitar a nossa fragilidade. E descobrir que afinal o poder está em cada um de nós e na nossa capacidade de nos juntamos por objectivos comuns. Não é esse um dos significados do Natal?

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:16

Aprender a apreciar a vida com "Mary Poppins"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.13

Mary Poppins, um musical que mantém a frescura tantas décadas depois de continuar a ser um dos musicais mais escolhidos pela televisão na época do Natal. Mary Poppins é muito mais do que parece à primeira vista. A nanny é muito mais sábia do que parece. E na família todos vão aprender a apreciar a vida.

 

A mensagem de Mary Poppins é intemporal, não se situa no tempo. Reparem que até mesmo a personagem da mãe sufragista se mantém hoje, embora com outras roupagens e outros métodos. E o pai Banks, que trabalha no banco, hesita entre o primado do dinheiro, a vida organizada e rotineira e os sonhos que foi deixando pelo caminho.

Todos terão de fazer uma ginástica mental e emocional para se manterem funcionais no mundo real, pois só felizardos como Mary Poppins e o seu amigo Bert se podem dar ao luxo de ser absolutamente, radiosamente, despudoradamente livres de constrangimentos sociais.

Mas com um pouco de sorte, também alguns de nós, os restantes mortais, poderemos ainda manter e integrar em adultos as diversas fases da nossa história: as crianças que um dia fomos, os adolescentes que um dia fomos.

 

A mensagem é precisamente essa: apreciar a vida de forma inteligente, ser suficientemente flexível para escolher a melhor forma de lidar com cada obstáculo e contrariedade. E uma das ferramentas para a vida é precisamente saber manter o sentido de humor, a jovialidade e a imaginação.

 

 

 

 

A infância é essa fase em que a realidade se mistura com a fantasia. Pensamos que a partir da adolescência essa mistura se apaga. Talvez isso aconteça com a maior parte das pessoas que são educadas e condicionadas a anular essa parte da sua história e a seguir a cultura dominante, o primado do sucesso económico, da funcionalidade e da rentabilidade. Ou mesmo que não sigam a cultura dominante, mesmo que privilegiem as pessoas, as interacções, os afectos, são programadas para evitar a espontaneidade da infância.

Paradoxalmente, este papel de "adulto" pouco tem a ver com maturidade ou responsabilidade, é apenas um papel num teatro social. Por isso vemos hoje, em adultos, tantas atitudes reveladoras de imaturidade e irresponsabilidade. E pior, vemos que perderam a capacidade de rir espontaneamente e de apreciar a vida.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:17

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:26

Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:13

Valores humanos fundamentais: a responsabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.12.12

Ligada à liberdade, vem a responsabilidade. Não há liberdade sem responsabilidade e as duas juntas são dois pilares da autonomia, assim como outros valores fundamentais, verdade, empatia, fraternidade, lealdade, que virão a seguir.

A responsabilidade de cada um por si próprio, pelo seu percurso, pela sua atitude, pela sua acção e interacção no mundo, a começar pelo mais próximo, a família, os amigos, o trabalho, a comunidade, o país.

 

A responsabilidade liga muitíssimo bem com a época natalícia: o presépio que idealizamos tem os pais à volta de um menino, a protegê-lo, tem a rodeá-lo os mais simples, os pastores, e os mais respeitados, os Reis Magos, mesmo que as estalagens lhes tenham fechado as portas. No presépio que idealizamos está a vaca e o burro, porque na tradição rural os animais domésticos co-habitam com os campesinos, para os aquecer (ver os contos de Miguel Torga).

 

Para pegar na responsabilidade, fui buscar um Robert Wise que já aqui referi, Execute Suite, a propósito do actor Fredric March, aqui na pele de um executivo ambicioso. Mas é a personagem de William Holden que destaco aqui hoje: a liderança responsável.

Já aqui trouxe William Holden várias vezes, e numa delas até prometi que seria o meu próximo herói, na série Os meus heróis, na qualidade do homem em quem se confia. Esta personagem, McDonald Walling, podia muito bem representar essa qualidade.

William Holden, na pele de um executivo que defende, não apenas os lucros dos accionistas, mas o prestígio da empresa, a qualidade do serviço prestado aos clientes, a sua confiança, porque é aí que está a preparação do futuro, a sua continuidade. O que propõe nesta reunião decisiva em que se irá nomear o novo director, é precisamente manter a vitalidade da empresa, uma empresa viva.

 

O importante a reter neste filme é que quanto mais elevada é a posição que alguém ocupa, quanto maior o seu poder e influência e o impacto das suas decisões, maior a responsabilidade. 

É isso que desejamos também neste Natal: que os responsáveis pelas vidas de muitos outros reflictam na sua enorme responsabilidade de defender o prestígio das suas organizações e instituições, porque o prestígio e a confiança são os pilares do funcinamento equilibrado e saudável de uma comunidade.

Aqui William Holden lembra que o sucesso e futuro da empresa depende da confiança dos clientes e do trabalho conjunto de todos os que nela trabalham. Só mobilizando todos os elementos se mantém a vitalidade de uma organização e se constrói o futuro. 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:30

Valores humanos fundamentais: a liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.12

Volto a este rio num dia de nevoeiro, real e metafórico. Sei falar de nevoeiros, conheço-os, já me vi metida na sua densidade perturbadora. Quem nasceu neste país e teve de interagir com a cultura do nevoeiro e com os que a abraçaram para daí ter vantagens, poder e visibilidade, mesmo atropelando tudo e todos, sabe até que ponto é difícil defender um valor fundamental, a liberdade de viver e trabalhar sem obstáculos.

Este rio vai dedicar-se a este valor e a outros, como a justiça e o equilíbrio entre direitos e deveres, como uma pessoa simples enfrenta as injustiças, como a verdade acaba por prevalecer, ou como os nevoeiros deste mundo se vão aclarar finalmente à vista de todos.

 

Para navegar esta corrente do rio dos valores humanos fundamentais, e esta é a época certa para falar deles, trago de novo Mr. Smith Goes to Washington.

Aqui vemos um único homem a enfrentar poderosos oponentes. Do seu lado tem apenas um ideal maior do que si próprio, alguns amigos leais, uma secretária experiente que sabe tudo o que há a saber sobre os obstáculos que vai enfrentar.

Aqui também vemos como funciona a linguagem do poder, o tal nevoeiro que persiste.

E finalmente vemos como a verdade e a justiça prevalecem, como tudo se aclara no fim, ainda que à custa de muita dedicação e persistência.

 

 

Mr. Smith Goes to Washington é um Frank Capra, não esquecer. Já navegam neste rio quatro Capras pelo menos, e todos dos anos 30. Frank Capra liga muito bem com o Natal e com os valores humanos fundamentais.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:23

Este Natal escolhi um guião e o piano de Sakamoto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.11

Este Natal escolhi um filme que em si não é uma obra de arte, nem sequer um filme virtuoso em termos de linguagem do cinema, mas tem um guião com imensas potencialidades, um guião assim podia pertencer a uma obra-prima, e tem personagens fabulosas bem defendidas pelos actores.

Como muitos filmes americanos das décadas mais recentes, segue determinados clichés na sua rota, refiro-me à própria questão da construção das personagens, são personagens-tipo para o bem e para o mal, e também ao desenvolvimento do guião a partir do primeiro terço do filme.

E há a questão da solução final para os encontros e dilemas, e a questão da banda sonora, mas disso podemos tratar já, será o piano de Sakamoto (o que tenho ouvido ultimamente): “Aqua”, “Koko”, “Amore”.

 

Se quisermos pensar em Natal este filme tem lá tudo: a futura mãe, uma mãe muito jovem e vulnerável, a esperança da vida esse milagre maior, a disponibilidade da sua natureza benéfica a reflectir-se na disponibilidade de desconhecidos que com ela se cruzam.

Este guião surpreende pela sua enorme força inicial: uma rapariguinha é abandonada pelo namorado no Wal-Mart. Daí para a frente constrói as rotinas da sobrevivência para si e para a bébé que vai nascer. Mas não estará sozinha.

Perguntamo-nos se isto é verosímil, defendo que sim, que é verosímil na sua simplicidade e complexidade, isto acontece na vida real. Porquê? Porque esta rapariguinha representa todas as pessoas aparentemente frágeis mas terrivelmente fortes na sua tranquilidade e constância, na sua natureza amorosa. Muitas vezes são presas fáceis de gente sem escrúpulos, isso também é verdade, mas muitas outras vezes recebem de volta o amor que expandem. Esta é para mim a melhor aproximação possível do espírito do Natal: esta disponibilidade afável e amorosa.

 

Aqui as mulheres são-nos apresentadas numa certa diversidade de tipos e na sua força e fragilidade, cometem erros e voltam a recompor-se, desde a alcoólatra generosa à mãe solteira vítima de predadores sexuais, passando por esta rapariguinha que descobre na fotografia (o registo da vida) a sua expressão no mundo.

Os homens aqui também na sua variação possível, do pior ao melhor, e com a possibilidade de redenção final mas após terem estragado tudo (no caso do namorado).

 

Procurem rever este filme sem preconceitos cinematográficos ou outros e terão uma agradável surpresa. Natalie Portman está perfeita aqui…

 


 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:12

O que permanece, haja o que houver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.10

 

Sim, o rio continua a navegar, agora mais calmo, mais parece um lago, quase nos podemos ver nesse espelho azulado. A Marilyn continua a cantar na sua viola para o rapazinho, e o Robert Mitchum ainda apanha peixes do rio, que à noite assa na fogueira onde também aquece o café. Por vezes conversam enquanto o rapazinho dorme, mas mais parece que desconversam. São assim tantas vezes os diálogos entre homens e mulheres. Porque será?

Gostava de vos falar de um filme que nos inspirasse a todos para entrar no ano que agora começa. Repetimos este ritual de passagem todos os anos, mas na verdade trata-se de uma continuidade, como este rio. De qualquer modo, insistimos em iniciar um ano novinho em folha, abrimos uma nova agenda, fazemos uma lista de coisas a mudar... E no entanto tudo depende da nossa convicção interior, aquela que nunca muda, a que permanece igual a si própria, a sensação de saber quem somos, haja o que houver.

Que filme nos inspira assim? A convicção interior? Tudo o que permanece? A ver se o descubro entretanto nos meus registos da memória. A tempo de entrar num novo ano que é apenas a continuidade do ano que hoje termina.

 

Aqui vai um filme que vi há cerca de um mês e que pode exemplificar, numa das suas personagens, essa permanência, esse saber quem se é, haja o que houver. Neste caso também, sobre os seus sentimentos.

Written On The Wind, de Douglas Sirk, revela-nos de novo um homem simples, leal, íntegro, e de novo num Rock Hudson que veste bem essa pele. Tal como em All That Heaven Allows, trata-se de uma personagem que se organiza de forma segura em valores da permanência: família, amizade, amor, lealdade. E para quem os sentimentos são simples e claros, o amor e a amizade são sempre acompanhados da lealdade. O amor só é revelado quando as circunstâncias o permitem e não antes, porque respeita quem ama. Não se trata, no entanto, de um amor cego, observa e avalia as qualidades da amada. A ingenuidade não faz parte da personagem, é perspicaz e responsável. E nunca abandona o amigo, só o enfrentando para a defender.

 

O filme também nos mostra como a segurança aparente de um império familiar não é base da permanência. A permanência não é exterior, é interior, está dentro de cada um de nós. Tudo o que se ergue à nossa volta pode derrocar, só a nossa convicção interior permanece, os valores essenciais. A família Hadley cai na auto-destruição e na solidão. Os nossos heróis descobrem a segurança em si próprios e um no outro.

 

A linguagem do filme é fluída, bem ritmada, e sempre elegante, à Douglas Sirk. Não há demasiada informação, apenas a essencial. É um drama recorrente. Cada personagem leva a sua bagagem simbólica: em Kyle, a dependência, a eterna adolescência, a imaturidade, a super-protecção, a perda de objectivos, o tédio de viver; em Marylee, a rejeição de Mitch por quem tem um amor obsessivo, a natureza caprichosa e infantil, a sedução, a sensualidade; em Lucy, a auto-confiança, a autonomia, o profissionalismo, a capacidade de afecto; e em Mitch, as tais qualidades da permanência referidas no início.

 

Que este e outros filmes vos inspirem, queridos Viajantes, a encarar cada Novo Ano com a convicção interior da vossa permanência essencial! Que encontrem essa segurança dentro de cada um de vós!

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:40

O Natal e o amor genuíno

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.09

 

O Natal sugere-nos autores como Charles Dickens, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde...

E filmes como os Capra ou alguns musicais: Meet me in Saint Louis, por exemplo, que em breve aqui quero colocar a navegar... ou o eterno Música no Coração...

 

Este Natal dou por mim a lembrar-me de cenas de filmes que em princípio nada têm a ver com o tema que procuro, mas que os meus neurónios insistem em associar. E é assim que hoje me surge o Tennessee Williams e o Richard Brooks em Gata em Telhado de Zinco Quente.

Um patriarca poderoso, uma família a gravitar à sua volta, mulher submissa e primogénito obediente incluídos, duas noras, uma ambiciosa, outra realista.

Um único elemento foge ao seu controle: o filho mais novo, o seu bem-amado.

Podem questionar-me, o que é que isto tem a ver com o Natal, que eu direi: Tem tudo. Uma família, conflitos de interesses, discussões, lutas pelo poder. E a possibilidade, milagrosa, da comunicação entre um pai poderoso e um filho falhado.

Há aqui de certo modo a repetição da Parábola do Filho Pródigo, mas em que este filho se torna a solução de todo o dilema da linguagem do poder, quando o poder se desmorona.

 

A cena-chave é a conversa pai-filho na cave da casa, já perto do final do filme. Por esta altura, já todos sabemos (menos o próprio) que o patriarca está muito doente, que os resultados dos exames médicos a que se submetera tinham confirmado o pior.

Também sabemos que o filho mais velho, instigado pela mulher ambiciosa, prepara o terreno para suceder ao pai nos negócios e na gestão da propriedade. Vemos desde o início a forma sistemática de apropriação do poder, em que tudo é jogado ao milímetro, usando os próprios filhos (e são muitos e barulhentos) como animais de circo amestrados.

A mulher realista, aplica-lhes um nome que lhes cai na perfeição: no neck monsters. Avisa aliás o marido da sua situação vulnerável e em clara desvantagem em relação ao irmão: tornara-se um alcoólico e não têm filhos.  (1) Acorda-o para a sua própria realidade: como irá sustentar o vício se o irmão tomar o controle de tudo? Sei o que é ser pobre, diz-lhe também. Vemos como esta mulher defende o marido das críticas da cunhada e como utiliza as únicas armas que tem: a capacidade de agradar aos homens, é jovem e bonita. Sabe, e di-lo ao marido, que o Big Daddy gosta dela.

Sim, por esta altura também sabemos que a mentira se instalou naquela casa. E o cerco começa a fechar-se à volta da mulher submissa, da que toda a vida vivera na sombra do patriarca, que a ele se dedicara, mesmo que negligenciada. É aqui que percebemos a diferença abissal entre as noras: a ambição mesquinha e a defesa de um lugar legítimo. Na ambição mesquinha não há lugar para o respeito, a sensibilidade e a compaixão. Atropela-se tudo e todos pelo caminho.

A cena-chave surge mais ou menos por aqui. O Big Daddy refugia-se na cave e é aí que enfrenta a verdade pela primeira vez. A verdade que se recusa a aceitar no início. Mas que as dores cada vez mais fortes lhe vão revelando. E finalmente, a frontalidade do próprio filho.

 

Porque gosto tanto desta cena? E porque a associo ao Natal? Aí vai:

Este filho, alcoólico, desportista falhado, mostra ao seu pai, poderoso e dominador, que a verdadeira força está no amor genuíno e não nas coisas que lhes dera.

É nesse desespero do filho, a partir objectos de viagens pela Europa, que o pai finalmente percebe a diferença: You owned us! é bem diferente do amor que ele próprio tivera em miúdo.

É isso que finalmente percebe quando pega na única coisa que o seu próprio pai lhe deixara, uma velha mala, uma velha mala, insiste, e um velho uniforme.

Mas o seu olhar ilumina-se imediatamente ao falar do pai, daquele velho vagabundo, e da felicidade desses anos juntos, da alegria do companheirismo, do amor genuíno.

 

Às vezes temos de ir às origens, à raíz, escavar emoções e sentimentos, o essencial de nós. Pode ter sido fugaz, breve, e muito longínquo, mas é isso que conta, a base de tudo, a nossa razão de viver. Só a partir daí é possível enfrentar a morte próxima, ou o fracasso e a cobardia.

O realizador deu esta tónica ao filme. O Big Daddy sai da cave determinado a viver os últimos dias que lhe restam de uma forma significativa. E o filho liberta-se finalmente do seu próprio pesadelo e deixará de rejeitar a mulher.

 

Não era esse o final que o Tennessee Williams queria, nem era essa a tonalidade da peça, segundo o que percebi num documentário. Mas eram os anos 50. (2) E também o que me prende ao filme não é essa perspectiva de análise possível das personagens. O que me prende ao filme é a discussão pai-filho naquela cave.  (3)

 

 

 

(1) Elizabeth Taylor aqui talvez no seu melhor papel de sempre, mulher sensual e insinuante, que o marido rejeita. A sua insistência mostra a sua força interior. É bem verdade que esta mulher tem vida dentro de si, como lhe dizem na cena final do filme.

(2) De certo modo, esta peça de Tennessee Williams é muito actual, numa altura em que se fala da forma mais ignorante, artificial e espalhafatosa das complexidades individuais, em que se reduz a identidade de alguém às suas opções pessoais de vida. Na peça há uma clara referência à homossexualidade recalcada do filho alcoólico e da sua relação com o amigo que se suicidara. Esta perspectiva da personagem é mais verosímil do que a apresentada no filme e não me admira nada que o Tennessee Williams tenha ficado decepcionadíssimo com as cenas finais. Mas como disse ali atrás, eram os anos 50, os anos moralistas do cinema.

(3) É também o meu papel preferido de Paul Newman, de copo na mão, no papel de desportista falhado, de desistente da vida. Embora tenha de reconhecer que poucos são os papéis que representou que eu não tenha adorado!

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:27


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D